sábado, 4 de fevereiro de 2012

GORDICE

QUARTA-FEIRA DE CINZAS, 22/02, 17H, HAVERÁ GORDICE NA FONTE DXS POMBXS, LARGO DA ORDEM

Sou carne gorda latejante pululante bacante ensadecidx na lápide sacrificial. Meus braços de entidade negra que dançam ferozmente, meus seios endiabradxs gritam por umx corpx sem orgãos, farra do boi, espeto: sou chutadx e me sinto regozijadx por despertar o mais podre nelxs. Não se brinca com quem tem chifres. Eu tenho. Eu continuo avançando e sonhando com o dia em que “A violência sairá do território sacro-diabólico para servir profanamente aos ideais redentores daqueles que ganham sua voz enquanto o sangue do algoz escorre” e eu marche com a minha própria bandeira em riste, a minha própria linha xamânica, o brado do indivíduo.

Dia 29/01, dia de nhoque, dia do orgulho gordo, dia abundante e caudaloso. Eu não quero que me digam, “Sim, você é gorda, mas você é linda por dentro”. É apenas mais um jeito de me dizer que sou feia, que de jeito nenhum eu sou bonita por fora. Ser gorda não é igual a ser feia, não me venha com essa. Meu corpo sou eu. Eu quero que você veja meu corpo, conheça meu corpo. A verdadeira revolução vem não de quando a gente aprende a ignorar nossa gordura e fingir que não somos diferentes, vem de quando aprendemos a usar isto em nosso favor, quando aprendemos a desconstruir todos os mitos que propagam o ódio axs gordxs. Se fazer gordice é praticar a liberdade do gozo, e se para fazer gordice é necessário ser gordx, não me inveje: engorde.

No carnaval, todos os discursos se igualam. O meu e o de quem vai para não abrir alas, superior o ano inteiro. Sua permissão para eu sentir prazer: os olhares reprimem sobre xs gordxs quando comemos em público, mas buzinam quando atravessamos, sim, a cidade de bicicleta e nos repreendem também quando dançamos. O que mata é a dieta, não a gordura. Não obedecereios e as repetidores e repetidoras e repetidores e repetidoras de padrão. A mensagem que estão me passando é a seguinte: “Se você engorda, é porque não consegue controlar seu desejo repugnante, e será punidx por isso com doenças horríveis e a morte.” Quem precisa de religião quando temos a patrulha antigorda para controlar nosso comportamento? Não é preciso mais ameaçar as pessoas de danação, apenas convencê-las de que nunca vão morrer ou ficar doentes se elas forem magras. (Ou se forem Falcons ou Suzies ou Barbies, com músculos de borracha ou cinturinhas esculpidas com espartilhos doentios - que importa danificar a coluna se for para sua coleira caber na sua cintura? Arrancar costelas também vale! Estranhas são as mulheres-girafas africanas, com argolas no pescoço. Do lado de cá, todxs normais...) E isso tem um poder assustador. O vômito bulímico cheira bem. A privação é aceita. Gordura, jamais.

((Também é acusado de doente todo corpo não grego, aquelx que não pode comer o que come tendo o corpo que tem. “Por que você não engorda? Por que você não come? Ah não, você vomita né? Seus joelhos são tortos.”

Sou magricela, meus joelhos são tortos, eles são roxos e eu me bato facilmente mas não largo as armas. Não largarei os sprays, não largarei as colas e as ocupações independentes do tamanho da arma que me leva para todos os lados. Continuarei a tatuá-la, a demarcá-la, a singularizá-la e a posicioná-la perante as pessoas que me discriminam. A cor do meu cabelo, o desenho na minha pele, a posição dos meus dentes. Coitadinhxs dxs que perderam o Carnaval, a verdadeira comunhão erótica que ele traz.

Me reservo e anonimamente faço minha revolução.))

A liberdade de ser o corpo e de sentir prazer sendo o corpo e de ser de fato o corpo, carregar o corpo, ter o corpo como arma. Os olhares heteronormativos sofrem nossa dança inclassificável. Somos julgadxs, mas seremos s a l v x s por Wilza ex-máquina. No carnaval as vozes individuais são ouvidas, florescem.

Minha carne em festa clama pelo fogo das rumbeiras, redemoinho de paixão furiosa e te arrasto enlaçadx aos meus pés. Nego o deus que não suporta excessos, mas manda ao fio da espada o filho de Abraão. Minha revolução é grande e gorda, um rolo compressor de corpo expandido. TODXS XS CORPXS SÃO PERMITIDXS. Gordx com x e com marshmallow. Gordx com caboclx e não brancx. Peçam licença às entidades de matriz africana antes de usá-las como piada. Falem em frente ax Stéfanx antes de chutar sua bunda. Encontrem motivos engraçados para rir da nossa cara. Encontrem qualquer coisa que não seja um pacote pronto para o seu conforto. Enquanto isso, no pré-carnaval de Curitiba, riremos mais que vocês, como já dançamos mais. Não é para entender nosso riso nem nossa dança. É para explodir os códigos que asseguram vossa superioridade. A beleza foi moralizada. Relaxem. Estamos em guerra.

Meu corpo é meu campo de batalha. E é nele que eu faço, eu danço, eu grito, brado a plenos pulmões. Eu faço a revolução, e ela passa pelo meu corpo e se expande pelo mundo. Meu corpo é lindo com todas as curvas, as retas, os deslizes, declives, gorduras, banhas balançando. Eu faço gordice, eu amo a gordice que sou e jogo a gordura na cara do mundo repressor. A violência é verbal, é psicológica, não só física. E eu rebato a violência. Não vou dar tapas com pétalas de margaridas. Minha luta é violenta como a violência que a sua repressão me impõe. E se mostrar meu corpo gordo é atentado ao pudor, eu vou atentar o seu pudor até seus olhos saírem das órbitas. Até, quem sabe, você consiga se libertar desse pudor, pois é ele quem propaga todo o preconceito.

Vamos executar nossa coreografia gordurosa para o deleite de seus olhos eletrônicos, mas jamais caleremos a boca em padedê anoréxico diante de suas ofensas. Somos b a c a n t x s e m e s t a d o d e g r a ç a em estado de violação. Todo pudor deve ser atentado. A carne exposta (abacaxis preciosxs balançam e quebram no chão), a carne cortada de quem sangra para o Carnaval continuar, quem ainda vai ameaçar tacar pedra na Geni?, temos o direito à volúpia! Temos a boca cheia de chantilly! Temos o direito à navalha da vedete ameaçada! Choramos purpurina no bronze da tirania, mas enquanto isso preparamos uma saborosa receita de bomba caseira.

Todo padrão de higiene é um padrão de exclusão, e não de limpeza. Todas as formas de opressão trabalham juntas, portanto elas devem ser combatidas juntas. Sentimos o mau cheiro e nos orgulhamos de ter os nervos fortes! Só nos trópicos poderia Dona Redonda Explodir! Somos os Monstros de Babalu, bilíngues e ventrílocos. Ocupamos as ruas como glutões, glutonas, devoramos a civilização. Tornamos tudo comestível. Dilatamos e nos misturamos, nossos corpos não têm fronteira alguma e escorrem antioxidantes.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Vera Pequeno em O Pacífico Ornamental: La Naturalista Preparadora


Sexta-feira dia 11/11/11, às 20h
Entrada Franca
Dentro da programação do 20minutos.mov, no Cafofo-Couve Flor
Rua Almirante Gonçalves, 1084, Rebouças
Curitiba, Brazil

O 20minutos.mov é um projeto que ganha uma segunda edição dentro da Corrente Cultural nesta sexta-feira, 11, às 20h no Cafofo Couve-Flor. O evento reúne artistas escolhidos através de uma convocatória para ocupar o Cafofo Couve-Flor e apresentar uma mostra dessa residência durante a Corrente.

Mais de trinta inscrições foram recebidas e três delas selecionadas: os artistas Angelo Luz; Fernando Proença e Renata Roel; e Mariana Zimmermann. São projetos que transitam entre a dança contemporânea, as artes visuais e a performance.

Após a apresentação dos trabalhos os residentes conversam com o público num bate-papo que contará ainda com a presença de artistas convidados.

20MINUTOS.MOV
- Angelo Luz (QUEER MOVES Nº 365: U CAN DANCE. CHUVA DOURADA E PURPLE RAIN)
- Mariana Zimmermann (Vera Pequeno em O Pacífico Ornamental: La Naturalista Preparadora)
- Fernando Proença e Renata Roel (SE ELA DANÇA EU DANÇO)

Informações: (41) 3387 8522
Entrada franca

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Orlandx em Constantinopla

foto: Alessandra Haro

ORLANDX[é uma palavra de terror, um grito de conquista, palavra chave, maldição bárbara, abre portais.
Os corpos se fundem e se organizam de uma terceira fórma, não passam por caminhos já percorridos, Orlandx encaixa e desencaixa-se, deita na relva, dança no caos, desorganiza o meu olhar - sumo aos olhos do voyeur, esfumaço o espaço. Truque de magia barata, sou um mágico de rodoviária. Dança cósmica de beberronas vulgares. Meu hálito te toca, te envolvo em minhas brumas, fundo toda a matéria. Uma das partes sumiu, escorreu pelas minhas mãos, diluiu-se no pó da criação. Cravo minha bandeira no flanco da terra. Pés ao alto serpenteando um play ground declaram: A cidade foi o presente que um amante milionário me deu!
Serpentes dormem na beira dos rios, sob pedras.]

Mostra Cena Breve
21 de Outubro, sessões às 19 e 21 hs
programação completa: http://www.ciasenhas.art.br/MostraCenaBreve2011/programacao.html

Manifesto pelo convívio artístico

em: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=184955%2COTE&busca=heliogabalus&pagina=1

A aproximação entre a Primeira Campainha e o Heliogábalus começou durante o Festival de Curitiba deste ano, quando o grupo mineiro se apresentava na capital paranaense. Ambos se reconheceram tanto nas afinidades estéticas quanto na postura e no discurso, por mais que seus processos criativos gerem resultados distintos.

Escolhidos para conviver artisticamente durante uma semana pelo Projeto Galpão Convida: Intercâmbio, os grupos trabalham desde o início da semana no projeto "Damas Indignas das Alterosas". Foi um período de trocas de referências, escritas conjuntas e passeios pelo bairro do Horto que culmina em uma ação cênica com 24 horas de duração. Será iniciada hoje, às 6h, na Praça da Estação, e segue até às 21h, quando se transforma em uma festa performática no Galpão Cine Horto.

Para concluir, amanhã os dois grupos se reúnem novamente às 17h, também no Galpão Cine Horto, para um bate-papo sobre o tema Diálogos Afetivos em Bando.

A ideia de diálogos afetivos é cara à Primeira Campainha, e está relacionada à maneira como os dois grupos se organizam, em constante diálogo com outros criadores e coletivos. "A primeira semelhança que conseguimos identificar foi essa nossa configuração de rede, com trabalhos em grupos distintos e colaborações em vários projetos de criação. Não nos encerramos numa formação de grupo com uma identidade única", comenta Marina Viana, atriz da Primeira Campainha.

Ricardo Nolasco, ator do Heliogábalus, define essa postura como de "bando". "Não é tanto uma ideia de trabalho, mas de um compartilhamento de vida", diz o curitibano.

Também nas questões temáticas, os dois grupos encontraram pontos de diálogo, tais como a discussão de gênero, o feminismo e o feminino. "Principalmente a partir da peça ‘Elisabeth Está Atrasada’", constata Nolasco.

Invasão. Durante essa semana juntos, curitibanos e mineiros se deixaram invadir mutuamente. Os manifestos de Marina Viana caíram nas mãos de Sabrina Lopes, do Heliogábalus, que os usou como matéria-prima de suas colagens. Mariana Blanco, por sua vez, se influenciou pelo conceito de clausura trazido por Vera Pequeno, do grupo curitibano.

Todos juntos escreveram um novo manifesto para se posicionarem como corpos políticos e transformadores do cotidiano do Horto por um momento, questionando noções como a de brasilidade.

A forma do manifesto, aliás, casa com a vontade de revolução que rege o Heliogábalus. "É uma revolução do indivíduo, e a ideia que esses indivíduos podem mudar o sistema", diz Nolasco.
A postura tanto da Primeira Campainha quanto do Heliogábalus remete ao "lado B", ou seja, ao que está à margem, mas sem lamentações.

Todo esse arcabouço de questões em comum e provocações mútuas, aberto para valorizar a possibilidade do encontro e de trocas, serve os grupos no roteiro de ações performáticas, com um aspecto ritual, planejado para o dia de hoje. Segundo Nolasco, alguns momentos serão transmitidos por streaming e Facebook.

A vida não tem roteiro Primeira Campainha e Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus viram a noite fazendo arte

em: http://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_11/2011/10/14/ficha_teatro/id_sessao=11&id_noticia=45109/ficha_teatro.shtml

Damas indignas das Alterosas conclamam os amigos fora do eixo para um chá na esquina, virar o disco, na cozinha de nossa senhora da bad trip. É esse o interminável título da intervenção que será realizada, durante 24 horas, pelos grupos Primeira Campainha, de Minas Gerais, e Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus, do Paraná. E ainda tem o subtítulo: festividades esquizoespetaculares de suicidados e alienados autênticos da dita cuja pós-modernidade bipolar e arcaica.

O encontro é resultado de um edital aberto pelo Galpão Cine Horto para o projeto Galpão convida: intercâmbio. Ao todo, foram entregues oito projetos de intercâmbio de grupos mineiros com outros de seis estados. Mas só havia espaço para um.

Primeira Campainha e Heliogábalus se conheceram no início do ano, durante o festival de teatro de Curitiba. “O grupo foi nos assistir, conversamos e criamos identificação. Achamos que tínhamos semelhança nas estruturas e escolhas estéticas”, explica Marina Viana, da Primeira Campainha. Essa identificação é até uma busca da companhia mineira. “Não é uma identidade única, que funciona com um grupo específico. A gente trabalha com o 171, Mayombe e sempre colaboramos com outros projetos. E o Heliogábalus funciona da mesma forma”, justifica a atriz.

Juntos, os atores optaram por criar uma ação performática com 24 horas de duração, de 6h desta sexta-feira até 6h de sábado. Dormir não é problema para eles. Faz parte da atuação. “Haverá um momento em que vamos esticar uns colchões na rua e dormir um pouquinho”, antecipa Marina.

Entre os planos de intervenção, já há algumas coisas definidas. Começa na Praça da Estação, onde a turma pega o metrô para a estação do Horto. Por lá, ocupam Galpão Cine Horto, Portão Laranja, Gruta! e a Rua Genoveva.

O roteiro exato ainda não está definido, mas não será difícil acompanhar as ações, que estarão concentradas na região. “Vai ter uma hora em que todos os espaços estarão conectados por internet, skype ou telefone de lata”, brinca Marina Viana. Ela avisa que haverá mapas com itinerário e ações espalhadas pelos três espaços, orientando o público.

A base para as ações é inspirada no conceito de “zona autônoma temporária”, o zat, que Marina define: “É a ideia de ocupação de um espaço, sem hierarquia, num processo anárquico e de colaboração mútua. A partir disso começamos a pensar a ideia de bando, de pessoas unidas em conceitos comuns. E o zat é flutuante, porque cada um vai criar a sua”, diz.

Um ritual de amanhecer, a entrega da chave da cidade para o pessoal do Paraná e um banquete na Rua Genoveva, entre 12h e 15h de hoje, estão no roteiro. Hoje à noite, às 21h, haverá uma festa performática no Galpão Cine Horto e amanhã, às 17h, um debate: Diálogos afetivos em bando.

Damas indignas...
Projeto Galpão convida: intercâmbio 2011, com Primeira Campainha (BH/MG) e Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus (Curitiba/PR). Entre hoje e amanhã, das 6h às 6h, no Galpão Cine Horto, Rua Pitangui, 3.613; Portão Laranja, Rua Capitão Bragança, 35; Espaço Cultural Gruta!, Rua Pitangui, 3.613 C e Rua Genoveva. Entrada franca. Informações: (31) 3481-5580.